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Publicado por no dia 15/02/2017 em Brasil e Mundo, Notícias | Nenhum comentário

Como a primeira-dama foi chanteageada por um telhadista

Marcela Temer, atual primeira-dama, teve dados do seu iPhone e iPad furtados por Silvonei José de Jesus Souza, de 35 anos, em abril do ano passado. O “hacker” e telhadista obteve acesso a todos os dados sincronizados na conta do iCloud de Marcela, como contatos, fotos e backup das mensagens do WhatsApp. Com essas informações em mãos, Silvonei ameaçou vazar informações de Marcela e exigiu R$ 300 mil para não divulgar o material. Ele ainda aplicou um golpe em Karlo Augusto Araújo, irmão mais velho da primeira-dama, e conseguiu obter R$ 15 mil ao se passar por Marcela. O caso rendeu a sentença de cinco anos, dez meses e 25 dias de prisão em regime fechado pelos crimes de extorsão e estelionato.

O assunto voltou à tona depois que trechos das mensagens trocadas entre Marcela e Silvonei foram divulgadas pelos jornais ‘Folha de S. Paulo’ e ‘O Globo’, na última sexta-feira (10). Poucos minutos depois das publicações, a Justiça censurou as reportagens. O ‘Gizmodo Brasil’ obteve acesso ao processo de investigação da Polícia Civil e à denúncia feita pelo Ministério Público de São Paulo e apurou como Silvonei conseguiu aplicar o golpe. Os documentos são públicos e estão disponíveis no site do Tribunal de Justiça de São Paulo.

O acesso às informações de Marcela

Em depoimento, Silvonei afirma ter comprado um HD de um vendedor ambulante no bairro de Santa Ifigênia, no Centro de São Paulo, e que neste disco rígido havia milhares de informações de clientes do provedor Terra.com.br, como email, endereço, CPF, número de telefone e número do contrato. Ele resolveu então restaurar seu iPhone e procurou uma conta que estivesse cadastrada no iCloud – e a escolhida foi justo a de Marcela Temer. Ao conseguir acessá-la pelo seu celular, restaurou a senha e baixou o backup em seu aparelho. Perícias nos HDs de Silvonei confirmam a versão do telhadista; em mais de um armazenamento, foram localizadas planilhas e banco de dados contendo informações de clientes do Terra.

Foi apenas com o backup das informações do iCloud de Marcela Temer que Silvonei tentou aplicar o golpe. Embora reportagens e os autos do processo citem “clonagem do celular”, não há provas de que ele tenha clonado as linhas de telefone da primeira-dama. Em um depoimento, Silvonei diz que “nunca teve a linha de Marcela”. Embora o golpe seja bem parecido com o relatado pelo Fantástico no último domingo (12), a investigação não cita em nenhum momento que o telhadista teve a ajuda de algum comparsa dentro de uma operadora para desativar o número e fazer uma espécie de portabilidade para um chip que estivesse em sua posse. Na verdade, a “clonagem” foi apenas dos dados do iCloud.

Então, como Silvonei obteve acesso ao backup de mensagens do WhatsApp de Marcela se para restaurar as mensagens no aplicativo é preciso ativar o número atrelado à conta? A cópia das mensagens do WhatsApp fica armazenada em um arquivo oculto no iCloud, mas existem alguns softwares que permitem extrair as mensagens. É possível que o hacker tenha seguido por esse caminho para obter o áudio de uma conversa entre Marcela e seu irmão, Karlo Augusto Araújo, que, na época, era pré-candidato a vereador em Paulínia (SP).

É difícil entender como Silvonei conseguiu se passar por Marcela Temer para conseguir extorquir Karlo. Em depoimento, o irmão diz tê-la identificado pela foto e apelido que estavam no aplicativo do WhatsApp. No entanto, essas informações só aparecem quando o contato está registrado na agenda do celular; para isso, Silvonei precisaria ter ativado em seu celular o aplicativo com o número de Marcela. Em outro trecho do depoimento, o réu diz que “no aplicativo da pessoa que recebe a mensagem, aparecem os dados do assinante que teve o seu iCloud invadido, por isso, ‘KILO’ achou que era sua irmã ‘MIKE’ e acabou fazendo o depósito de R$ 15.000,00″.

Outro ponto nebuloso do processo é a participação de uma pessoa, com vulgo de “Tim”. Sua identidade é confusa, já que pessoas ouvidas pela polícia indicam que seu nome é Antônio, porém ele é mais conhecido como “Marcelo”. “Tim” foi quem emprestou o número de uma conta bancária para Silvonei – conta que o golpista passou para Karlo depositar os R$ 15 mil. Silvonei diz que só o conhecia pela internet e que ele ficou com parte do dinheiro depositado. Embora sua localização tenha sido indicada por pessoas ouvidas pela polícia, os autos não indicam que “Tim” tenha sido interrogado.

As extorsões

A primeira tentativa de extorsão foi a única bem-sucedida. Foi no dia 4 de abril de 2016 que Silvonei entrou em contato com Karlo pelo WhatsApp, se passando por Marcela Temer, e pediu um empréstimo de R$ 150 mil “para a mão de obra de uma pintura a ser realizada em uma Casa de Tintas”. Num primeiro momento, Karlo disse ao golpista que não tinha esse valor, mas apenas R$ 15 mil. A quantia foi depositada pouco depois, e então não se falaram mais.

A partir do dia 5 de abril de 2016, Silvonei iniciou os contatos com Marcela Temer. Foram repetidas tentativas de chantageá-la e obter a quantia de R$ 300 mil para não vazar seus dados. No primeiro contato, o golpista enviou uma foto de Michel Temer e da própria Marcela, que estavam armazenadas no iCloud. Nos dias seguintes, continuou a tentar contato, sem sucesso. Apenas no dia 16 de abril, Marcela voltou a responder Silvonei, dizendo que não tinha nada a esconder, quando ele disse que ainda poderia recuperar os dados.

O último contato foi realizado no dia 18 de abril. Nessa data, Silvonei enviou um áudio contendo uma mensagem de voz entre Marcela e seu irmão. Na sequência, Silvonei ameaça Marcela dizendo que o áudio joga o nome do marido dela na lama, uma vez que a primeira-dama fala sobre um marqueteiro do presidente que faria a parte baixo nível.

Os autos do processo não contêm os arquivos furtados do celular de Marcela, muito menos o áudio da conversa de Marcela com o irmão. Há apenas citações dos nomes dos arquivos – os conteúdos em si foram suprimidos para “preservar a intimidade e privacidade da vítima”.

Durante a cobertura do caso, a imprensa divergiu sobre o conteúdo obtido pelo hacker – enquanto alguns citaram fotos íntimas, outros disseram se tratar apenas de um áudio. Ouvido em juízo, o Delegado Rafael Guimarães Corrêa Lodi, responsável pela investigação do caso, disse que Silvonei tinha fotos pessoais de Marcela. Em um trecho dos autos do processo é dito que essas fotos “poderiam comprometê-la ou no mínimo constrangê-la, porque seria seminua, além de mensagens que poderiam atrapalhar a vítima no momento em que ela vivia”.

Sentença rápida

Réu primário, Silvonei cumpre sua pena de cinco anos, dez meses e 25 dias no presídio de Tremembé, no interior de São Paulo. A velocidade com que a sentença foi dada e o rigor da pena são surpreendentes. Como aponta o Motherboard, o tratamento especial para o caso encurtou para seis meses o que costuma ser um processo de anos de duração.

Ao ‘G1′, o advogado de Silvonei, Valter Bettencort Albuquerque, afirmou estar “chocado” com a decisão de colocar um réu primário em regime fechado por cinco anos. “Por ele ser de baixa periculosidade, deveria ser regime aberto ou semiaberto”, disse Albuquerque.

Vale notar que o caso foi investigado por uma equipe de confiança do então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, atual Ministro da Justiça, licenciado desde que foi indicado por Temer para suceder Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal.

11 minutos e uma sentença: a censura

Nesta segunda-feira (13), os jornais ‘Folha de S. Paulo’ e ‘O Globo’ retiraram do ar reportagens publicadas na sexta (10) com trechos das conversas entre Marcela e Silvonei. Como aponta o ‘BuzzFeed News’, o juiz Hilmar Castelo Branco Raposo Filho, da 21ª Vara Cível de Brasília, ordenou a retirada do ar das matérias que tratavam do caso, após uma petição ajuizada pelo sub-chefe de assuntos jurídicos da Casa Civil, Gustavo do Vale Rocha. A decisão foi dada às 18h56 da sexta-feira (10), 11 minutos depois que o site do jornal ‘Folha de S. Paulo’ publicou a matéria.

A decisão considera violação de intimidade a reprodução do conteúdo dos diálogos e proíbe que qualquer veículo divulgue o conteúdo encontrado no celular da primeira-dama, sob pena de multa de R$ 50 mil, embora o processo que contém os trechos da conversa já não esteja mais sob sigilo da Justiça e não há nenhum dado sensível nas imagens publicadas.

Ao ser questionado sobre essa decisão na segunda-feira, o presidente Michel Temer disse que “não houve isso [censura]”. O site The Intercept, “em defesa à liberdade de imprensa”, publicou os materiais.

O ‘Gizmodo Brasil’ entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e com a Polícia Civil para esclarecer porque “Tim” não foi ouvido durante as investigações. O informativo ficou de atualizar a publicação quando obtiverem resposta.

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Fonte: Gizmodo

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